Guto Jimenez

A REVOLUÇÃO DAS BASES
09.11.2010
Notícias - Especiais
4 comentários
Surf de Rua 2010, Quintino/RJ (crédito: Tio Verde)
Num post que escrevi há cerca de 2 anos, perguntei qual teria sido o fato mais significativo do skate naquele ano e dei 5 opções pra resposta. Expliquei que a compra da Sector 9 pela Billabong seria mais significativo do que as outras opções, principalmente porque indicava que o crescimento do mercado de longboards já tinha chamado a atenção das grandes corporações envolvidas no meio do skate.
Dois anos depois, nem eu mesmo esperava que o mercado tivesse tomado uma guinada tão grande em direção aos skates grandões e ao simples ato de andar de skate pra se divertir.
O momento atual do skate no mundo inteiro é o da revolução das bases : pela primeira vez em muitos anos, é a vontade dos skatistas que está ditando os rumos que o mercado deve seguir, e não o contrário como vinha ocorrendo. Exagero meu?! Analise só o seguinte: desde 2005, as vendas globais de produtos ligados ao street vem diminuindo em contraste com produtos ligados às outras modalidades (vert, longboards, slalom, freestyle), que só vem aumentando. No ano passado, a marca que teve o maior volume de vendas no mundo inteiro não foi nenhuma de street-vert, mas sim a Sector 9 - aquela mesma adquirida por corporação em 2008.
Mesmo com esses sinais evidentes e óbvios, parte da indústria fingiu que nada estava acontecendo de verdade e adotou a "tática do avestruz" - enterrando suas cabeças no chão pra não verem o que acontece ao seu redor. Claro que os fatos não deixam de se suceder por conta disso, muito pelo contrário: as mudanças estão ocorrendo de uma maneira tão acelerada que muitos demoram pra acordar pras novidades. Num mundo onde a informação em tempo real é o que há, dar uma de sonolento pode ser um erro fatal às pretensões de qualquer marca que seja.
Você deve estar pensando, "ué, se fosse assim mesmo, teríamos menos produtos disponíveis no mercado". Você tem razão em parte, pois não é tão simples assim mudar o direcionamento de toda uma indústria bilionária como a do skate, Além disso, os milhões e milhões de streeteiros do mundo jamais podem ser deixados de lado e nem ignorados como uma gigantesca força de mercado.
Alguns fatos relacionados ao mercado, à mídia e principalmente aos praticantes foram bastante relevantes nesse sentido. Entenda que todos estão conectados um ao outro de maneira umbilical, ou seja, tudo o que acontece com um é refletido no outro de uma maneira ou de outra. Veja como está o cenário na atualidade:
- SKATISTAS - Depois de muitos anos, homens e mulheres de várias idades passaram a se interessar pelo skate, e não foi por causa de manobras mirabolantes realizadas nas ruas ou pistas do mundo. Esse povo todo descobriu os prazeres de simplesmente dar um rolé, sem necessariamente se identificar com as manobras ou com as inúmeras modinhas inerentes ao meio. A imagem-padrão do skatista está mudando rapidamente pros leigos, que já estão deixando de visualizar apenas "um garoto entre 14 e 18 anos que pratica street" pra cair na real: há skatistas de todas as idades e orientações sexuais. Sei disso muito bem, pois acompanhei a estranheza dos leigos ao ouvirem que ando de skate depois de eu ter feito 20 anos; há uns 5 anos, passou a ser mais "natural" aos outros aceitarem que um tiozinho como eu também pode andar de skate. Pergunte pra algum skatista veterano que você conheça se ele também não tem essa impressão, e veja como eu não estou viajando aqui.
- MERCADO - Bem que os antigos dizem: "onde passa um boi, passa uma boiada". Era óbvio que outras corporações iriam seguir o exemplo dado pela Sector 9, e algumas já partiram pra lançar produtos mais ligados às outras modalidades. A Element lançou uma linha de long e shortboards homenageando o grande Greg Noll, um lendário surfista de ondas grandes dos anos 50; recentemente, a Globe lançou uma linha completa com seus cruiser boards; a Think deve reativar em breve a linha de longs de Joel Tudor, que fez relativo sucesso no final dos anos 90. Além disso, não é à toa que tênis mid e high top voltaram a ser "tendência" a ser seguida, nem muito menos aqueles modelos que lembram / imitam / chupam os clássicos Vans Off The Wall. Mesmo aqui no Brasil, as marcas, lojas e os sites dedicados a essas modalidades estão rindo de orelha a orelha com os crescentes volumes de vendas.
- MÍDIA - Se você curte revistas, já deve ter reparado num fato curioso: elas parecem ter "encolhido" nos últimos tempos; se você é ligado em vídeos, também deve ter reparado que as produções estão levando mais tempo pra serem finalizadas. Não é só uma impressão, mas sim uma realidade - e, da mesma forma, não foi só causada pela proliferação de sites sobre skate na rede, de ferramentas como o YouTube ou por causa da melhoria da qualidade das produções. Antes mesmo da mais recente crise financeira internacional, as marcas de skate já estavam sentindo o sufoco de vendas causado pela imensa quantidade de produtos semelhantes demais sendo oferecidos. Tábuas, eixos e rodas de inúmeras marcas nas mesmas dimensões e no mesmo estilo = problema sério de vendas. A ficha demorou a cair, mas refletiu de imediato justamente na mídia: menos $$, menos merchandising, menos anúncios. Esse cenário afetou a TODAS as mídias que se recusaram a nadar contra a corrente da "mesmice" vendida pelas marcas; os que acreditaram na diversidade de modalidades e praticantes, também riem frouxo por causa da miopia alheia.
Portanto, esse é um momento verdadeiramente histórico pro skate. Somos NÓS quem estamos indicando os caminhos que o cenário irá seguir, e não o contrário como estava sendo nos últimos anos. Aproveite essa onda: experimente outras modalidades além da sua favorita, descubra outros terrenos e mantenha-se atento pras novidades que surgem a toda hora. Abra a sua mente, desencane e divirta-se antes de qualquer outra coisa sobre um skate, e pode acreditar: não há compensação melhor do que sentir prazer andando de skate. Experimente!
comentários

BRUNO FUNIL:
Ótima Guto!!!
10.11.2010 16:52
| Rio de Janeiro, RJ
Ramon Oliveira:
Pois e Guto, so agora que o olhar miope do mercado esta percebendo o que a tempos tentamos mostrar... Uma pena que estivessemos tao adiantados.
40polegadas
abc
Ramon
12.11.2010 13:26
| São Paulo, SP
Guto Jimenez:
Ramon, iniciativas como a sua 40Polegadas e a extinta Riolongboard skateshop foram iniciativas pioneiras e adiante de seu tempo, e mostraram o caminho a ser seguido. Pena q é como se diz na Lapa;; "quem dá luz a cego é bengala branca ou Santa Luzia"... Agora q ta doendo nos bolsos deles, acordaram - antes tarde do q nunca!
13.11.2010 08:28
Rennê:
Não podemos esquecer de vc meu camarada, que também está sempre a frente, bem informado, com opiniões relevantes pro skate. Tua presença aqui é uma honra pra Pense Skate.
15.11.2010 20:08
| Rio de Janeiro, RJ




