Guto Jimenez

HERÓIS SEM MEDALHAS
11.10.2010
Notícias - Brasil
1 comentário
Isso é uma vergonha! (crédito: Google)
Nós, skatistas, acompanhamos as façanhas de caras como Pedrinho Barros, Luan de Oliveira, Sérgio Yuppie e Douglas Dalua & outros pelas pistas, ruas e ladeiras do mundo. Afinal, é através dos ótimos resultados nos eventos que eles correm e nas partes impressionantes nos vídeos nos quais aparecem que eles conquistaram o respeito e a admiração mundiais nos cenários de vert, street, downhill slide e speed. Por conta disso, é claro que eles se tornaram os “heróis da mídia” onde quer que vão, tendo seus passos e façanhas seguidos onde quer que eles botem suas rodinhas pra andar.
Sabemos muito bem que o mundo do skate é muito maior do que os famosos. Há gente que anda MUITO e realiza verdadeiras façanhas nos cenários que estão incluídos, mas não tem absolutamente nenhum retorno de mídia às suas ações. Muitas vezes, inclusive, não têm sequer retorno financeiro algum pra dedicação que têm pelo skate, o que não impede que continuem fazendo aquilo que têm vontade por simples amor a essa tábua com dois eixos e quatro rodas de uretano.
Conheça agora alguns desses “heróis sem medalhas”.
•PIERRE HANSEN (vert/RJ) - Não se deixe enganar pela figura franzina desse carioca; quando se trata de conservar e agitar o cenário de vert do Rio, o cara vira um leão; se o pico for a sua “segunda casa”, o bowl do Rio Sul, aí então que é ele pode tomar dimensões de um daqueles ursos de 3 metros de altura. Sempre presente nas ‘sagradas” sessões daquele pico às quartas e sextas, bem como em todos os eventos da modalidade no Rio e arredores, Pierre cuida daquela pista como se fosse sua. Ao lado de Pedro Tibau, outro assídulo local do pico, por muitas & muitas vezes ele literalmente meteu a mão na massa pra cuidar do bowl, desistindo de esperar pela atenção da prefeitura e/ou do shopping, que seriam os responsáveis pela manutenção da pista. Afinal de contas, o pico que é considerado pela Thrasher como “um dos 15 lugares que você precisa andar de skate antes de morrer” merece a dedicação de alguém entusiasmado e sempre presente, portanto o Rio Sul precisa de caras como Pierre e Tibau. Como se não bastasse, as linhas que ele executa nas transições são fluidas e entusiasmadas como um bom vinho tinto – bebida que ele aprecia bastante, aliás - , transformando-o num expert de cada centímetro daquele solo sagrado do vert carioca. Não espere encontrá-lo nas plataformas de halfs em eventos pra “convidados”; ele provavelmente estará no meio da galera, vibrando e se divertindo como qualquer outro fã, sem sequer se importar com a relevância que ele tem pro vert carioca.
•MANOEL COIMBRA (street/PR) – Você deve estar pensando, “eu já ouvi falar nesse cara”. Com quase toda certeza: Coimbra destacou-se no cenário do street nacional por ter manobras bastante técnicas, tendo virado pro em meados dos anos 90. No final da década, fez parte de uma equipe da Crail que incluía pesos pesados como Lincoln Ueda e Rodrigo Tx, só pra citar dois dos integrantes; nos anos seguintes, difícil era o mês que não se via o cara estampado em alguma revista ou em algum filme de skate, seja detonando algum pico ou ensinando o passo a passo de suas manobras complicadas. Paralelo a isso, o cara sempre esteve envolvido com a produção de videos, sejam produções de skate ou trabalhando como editor numa emissora local. Como skatista, esteve em videos de norte a sul desse país: Deja Vu (PR), Select (NE), Identidade (Centro-Oeste), Obscure (SP)... Um curriculum invejável, né não?! Pode ser pra mim e pra você, mas não parece ser suficiente pro mercado de skate, que parece valorizar cada vez mais o hype e o marketing pessoal em detrimento da competência e do histórico individual. Acredite: o cara hoje trabalha como freelancer na área de produções audiovisuais, off-skate mesmo. Não consegue ter o retorno financeiro do estilo de vida que adotou pra si, fato que o aborrece mas que não é capaz de tirar o estímulo de continuar a andar de skate e nem de fazer suas correrias.
•JOSÉ CARLOS “BIRINHA” (downhill slide/SP) – Ninguém duvida que o Yuppie é “O Cara” no downhill slide no mundo atualmente, né não?! Pois saiba que o próprio considera o JC “Birinha” como um de seus mestres e uma das maiores inspirações em termos de estilo de drope e manobras ladeira abaixo. Eu assino embaixo, reconheço a firma e carimbo em 3 vias, pra não deixar nenhuma dúvida quanto a isso: ver o cara dar um rolé e não cair o queixo é digno de autocontrole de monge budista. A facilidade que ele tem pra execuar manobras, as linhas criativas que misturam slides com tricks nas calçadas, a presença dele nas sessões mais nervosas e nas situações mais cabulosas – sempre com um sorriso no rosto, diga-se de passagem -, tudo isso faz do Birinha um dos grandes nomes da modalidade no Brasil em todos os tempos. Você pode se perguntar; ora, se é assim, então por que ele não é tratado como merece?! Simplesmente porque Birinha não está nem aí pra campeonatos ou pro hype, já que a categoria pro da modalidade ficou longos 12 anos (!) sem ter um evento, preferindo desfilar sua arte e sua graça pelas ladeiras de São Paulo e do Brasil. Se você duvida , vá num dia de sessão a picos como a Ladeira da Morte, a Bagiru ou a Barriga da Velha, em SP, e pergunte pelo Birinha. A reverência e o respeito dos skatistas de todas as idades e experiências te darão uma noção do que falo aqui, pois foram adquiridos com muito uretano, pele e sangue largado nas ladeiras do país.
•WALDEMAR BRANDI “PREDADOR” (speed/SP) – Você sabia que, aqui no Brasil, tem um maluco que se apresenta com skate antes das provas da Fórmula Truck?! Ele é puxado por uma moto e, no aquecimento, atinge a velô de 110 km/h; quando o show é pra valer, o piloto se empolga e o puxa a impressionantes 140km/h! O nome do maluco é Waldemar Brandi, conhecido no meio de speed como “Predador” por ser a última pessoa que qualquer um gostaria de ter no seu vácuo numa ladeira. O cara é grande e pesado, uma combinação que por si só produz MUITA velocidade ladeira abaixo, e a sua filosofia pessoal é “footbreak fuck off” – isso mesmo, ele abre mão de freiar com os pés antes de curvas, só mesmo com air break e slides. Ele abriu mão de competir em ladeiras em busca da realização de um sonho: o de quebrar todos os recordes de velocidade possíveis sobre um skate. O Livro Guinness dos Recordes reconhece as marcas de Douglas Dalua (113.8 km/h numa ladeira) e de Danny Way (117.3 km/h, puxado por um carro) como as maiores já atingidas, mas há controvérsias: Byker Sherlock atingiu 144.160 km/h puxado por uma moto numa pista de aviação, pro programa Stunt Junkies em 2007, e Mischo Erban acaba de ultrapassar 130 km/h numa ladeira. “Pra mim, as marcas do Dalua e do Danny são mero aquecimento; quero mais é bater a marca do Byker pra calar a boca desses gringos falastrões”, diz o Predador com toda a franqueza que lhe caracteriza. Só que tem um problema: NENHUMA marca de skate o apóia de forma alguma. Ele tem que bancar os custos de viagens pros autódromos onde rolam as corridas, e conta com a boa vontade e camaradagem do pessoal da produção pra se alojar e se alimentar. Fosse nos EUA, ele estaria vivendo de seu sonho pois essa é uma façanha única que pouquíssimos teriam a técnica e a coragem de executar; infelizmente, ele está desanimando cada vez mais pela falta de apoio e estabeleceu o prazo pra até o final desse ano pra ver se consegue realizar a sua façanha.
Em tempo: no último dia 10/10, Predador mandou 140 km/h na prova da Fórmula Truck no autódromo Velopark, em Nova Santa Rita (RS). Você pode assistir ao Predador numa prova de 2009 no video ao final deste post.
Nenhum dos citados acima consegue viver do skate, apesar da dedicação ímpar ao nosso estilo de vida e de serem motivo de admiração constante aos que estão à sua volta. Os motivos?! Principalmente, falta de reconhecimento e de visão dos empresários, produtores e promotores de eventos que preferem focar apenas o hype atual em detrimento do histórico e do respeito conseguidos nas sessões de skate.
Como diria o jornalista Boris Casoy: “isso é uma vergonha”.
Waldemar Brandi (crédito: youtube)
Waldemar Brandi (crédito: Acervo Pessoal Facebook)
Waldemar Brandi em ação! (crédito: Acervo Pessoal Facebook)
Birinha na Ladeira da Morte em 2010 (crédito: Acervo Pessoal Facebook)
Manoel Coimbra - bs crooked (crédito: Bruno Mendes)
Pierre Hansen - bs air no bowl do Rio Sul (crédito: Arquivo Pessoal Facebook)
comentários

Sylvio Azevedo:
Pierre Rules!!!! Boa matéria!!! Parabéns!Salve os verdadeiros!!!
13.10.2010 16:58
| Rio de Janeiro, RJ









