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Guto Jimenez

Guto Jimenez

UMA NOVA VISÃO: Longboard, mercado, skate old school e sem modinhas

PEQUENAS MARCAS: GRANDE FUTURO

06.01.2011

comentários 2 comentários

Model do Duane Peters lançado há 3 anos pela Gardhenal em série limitada

Model do Duane Peters lançado há 3 anos pela Gardhenal em série limitada

É quase que uma regra no cenário de skate: praticamente todas as marcas de ponta de hoje em dia já foram pequenas um dia. Os exemplos são tantos que nem vale a pena relacionar aqui, basta que você visite os sites institucionais e veja as histórias; quase todas terão em comum o fato de terem começado no fundo de quintal ou com um início bastante modesto em relação à grande dimensão alcançada nos dias atuais. Lógico que há exceções, e elas não são poucas, mas o normal é que as empresas comecem mais enxutas e que vão crescendo conforme vão conquistando suas parcelas de mercado.
Conforme as marcas vão crescendo, vai acontecendo um certo paradoxo: quanto mais se vende, fica muito mais difícil de se manter o nível de qualidade de produtos lançados em grande escala industrial. Todo skatista já ouviu algum comentário do tipo “essa marca de tênis já foi boa, agora acaba em três sessões”, “já usei muito shape dessa marca, mas agora ta quebrando fácil” ou “nunca vi eixo pra empenar como esse!”. Pode prestar atenção – todos os produtos são de grandes marcas.
E não é só isso. Além de haver uma perda de qualidade, as grandes marcas são praticamente obrigadas a lançarem algumas coleções / modelos por ano. Se isso mostra um grande dinamismo da indústria por um lado, por outro traz um fator bastante preocupante: quase não há uma identicação muito grande com o produto. Por mais que um determinado modelo venda bem, ele tem o seu tempo de vida com prazo de validade limitado uma vez que a engrenagem da indústria não pára jamais.
Vamos analisar apenas alguns fatos relativos às tábuas de skate, que foram os primeiros produtos a criarem uma identidade entre o skatista, o profissional e a indústria. Quando foi a última vez que a arte e o design de um pro model te chamou a atenção?! Sem saudosismos, mas quanta diferença das listras transversais do Duane Peters (pela Santa Cruz), ou do símbolo kamikase do Hosoi (Sims), ou ainda do vórtex do Gator (Vision), do elefante do Mike Vallely (Powell)... Ter um pro model era algo tão difícil e tão restrito que os models eram fabricados por alguns anos antes de renovarem as artes e o design; com a banalização dos pro models, também banalizou-se a produção deles e se perdeu a identidade.
Outro ponto importantíssimo (talvez até mais importante em termos de mercado) é que boa parte das grandes marcas nos EUA está vendendo em larga escala pra grandes redes de artigos esportivos. Como essas redes compram muito, é lógico que os preços praticados são mais atraentes e o público comum (que anda de skate mas não é engajado ao skateboarding com um todo) vai atrás dos melhores preços, esgotando os estoques dessas redes. As skateshops hoje em dia têm de rebolar pra se manterem abertas, pois a concorrência desleal com os grandões é praticamente impossível; muitas delas não conseguem e têm de encerrar as suas atividades. E não pense você que essa é uma tendência somente norte-americana; vá nos sites da Centauro ou Netshoes, por exemplo, e compare os preços deles com os de lojas. Ou então vá nos sites de grandes redes de esportes de ação e compare os preços com os de skateshops... chega a ser até covardia em alguns casos.
Curioso é que, pra crescerem e aparecerem no mercado, essas marcas que hoje são grandes usaram e abusaram das skateshops na hora de roer o osso, mas o filé ficou com as grandes redes... Se você está pensando “cuspiram no prato em que comeram”, tem toda a razão. Como toda ingratidão, é claro que rolou uma reação das skateshops.
Está havendo uma reação do mercado: se as grandes marcas estão mais interessadas no $$ do que no comprometimento com as skateshops, então o negócio é ir atrás de marcas pequenas. Elas precisam de cada ponto de venda disponível, pois sabem que a sua produção é limitada e portanto cada dólar é valiosíssimo, então surge a situação de “juntar a fome com a vontade de comer”. Taí uma equação boa pra todo mundo, pois as lojas procuram por produtos mesmo que a um preço um pouco maior e as marcas pequenas, por terem uma produção menor e diferenciada, têm condições de atender a essa demanda.
Fora isso tudo, ainda há aqueles produtos realmente diferenciados que são rotulados com “série limitada”, que já saem de fábrica feitos pra poucos. Geralmente são edições especiais e restritas, que naturalmente têm um valor agregado maior no mercado. Quando tanto o fabricante quanto o lojista lucram mais, e o skatista tem um produto melhor em mãos pra ser detonado, então é porque outra equação “boa pra todo mundo” está sendo posta em prática.
Pra que essa história toda não fique apenas na teoria, vou usar alguns exemplos práticos aqui:
- O menino-prodígio Nyjah Huston largou seu antigo patrocínio de tábuas e fundou a sua própria marca, a I&I Skateboards. Após um viral relativamente discreto na rede, esperava-se que ele fosse massificar a produção em torno de seu nome mas ele escolheu fazer justamente o contrário, produzindo muito menos que se esperava e ganhando bem mais do que o normal. Consta que os produtos não param nas lojas, tanto pelo hype em torno do Nyjah quanto pela qualidade superior das tábuas em comparação a muitas outras.
- Em 2009, a marca carioca Bossa Boards surgiu no mercado com longboards feitos de laminados de bambu no esquema “escala industrial doméstica”. Com alguns tamanhos pra 2 models, pintail e simétrico, a tábua é o resultado de alta tecnologia e tem escalas de flexibilidade especiais pra faixas de peso dos skatistas. Quem pode comprar paga o equivalente a um skate completo montado por cada exemplar, e vai dar o seu rolé tão satisfeito quanto o dono de um Porsche...
- Há uns 3 anos, a Gardhenal lançou uma série de 150 tábuas com um pro model do mítico Duane Peters, a “DP 1977”. O Mestre do Desastre ficou amarradão com a homenagem e, mais ainda, com o fato de a marca não estar envolvida com o skate só pela grana. O tiozinho aqui é o feliz proprietáro de uma dessas tábuas, que uso quando vou dar os meus rolés podrões nos banks e bowls desse planeta.
Se você for consumidor de alguma marca grande, e não estiver satisfeito com o desempenho desse produto, dê uma chance pras pequenas. Quem sabe você não irá se surpreender?! Abra a sua mente pra novas experiências no skate, não só como skatista mas também como consumidor.
No final das contas, a conclusão que se chega é a seguinte: ser uma marca pequena, ou ter um produto dela, pode ter muito mais vantagens do que se imagina...

OBS: Atualmente, apenas ¼ dos meus skates têm tábuas feitas por marcas grandes.

comentários

  leonardo:

Muito boa a matéria !!! ...show

conheço a Bossa Boards mtu boa ! ...

alem disso to tentando fundar minha própria brand.

www.lowbrandcollabs.blogspot.com

Valeu !

tem espaço pra pequenas tbm !

06.01.2011 03:43   | São Paulo, SP

  Felipe Siebert:

Excelente matéria Guto. Acredito que estou trabalhando também neste nível. Se tiver um tempo depois dá uma olhada:

http://siebertsurfboards.blogspot.com/search/label/skate

20.02.2011 10:23   | Florianópolis, SC

 

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