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Guto Jimenez

Guto Jimenez

UMA NOVA VISÃO: Longboard, mercado, skate old school e sem modinhas

SWITCH NASCIDO EM CAMPO GRANDE?

30.09.2011

comentários 6 comentários

[clique e veja imagem original]">Só pra você ter uma ideia do tamanho do problema... (crédito : Acervo pessoal de Márcio

Só pra você ter uma ideia do tamanho do problema...  (crédito: Acervo pessoal de Márcio "Mumu")

A história abaixo é conhecida por todos os que frequentavam a pista de skate de Campo Grande, no Rio, em meados dos anos 80, e portanto pode ser conferida com qualquer um desses locais - eu incluído entre eles. Não foi nenhum norte-americano, europeu ou outro brasileiro a inventar o switch stance, ou a andar de skate "ao contrário" como a gente falava na época. Na verdade, não foi nenhum skatista famoso ou sequer conhecido nacionalmente a inventar o ato de andar de skate com a base trocada...


Primeiro, é necessário que se inclua os fatos dentro de seu contexto temporal, de forma a permitir que se consiga enxergar a dimensão da façanha que vou relatar a seguir.


Os finais de semana dos skatistas do Rio em meados dos anos 80 eram marcados por uma peregrinação obrigatória à pista de skate de Campo Grande, sempre que não chovia. Lá, todas as diferenças sociais eram postas de lado quando as rodas de uretano fritavam por toda a extensão da pista. Eixos eram gastos na borda sem coping, e apesar de quase não contar com uma plataforma pra roll in / roll out, andar muito rápido e pegar a linha da pista eram pré-requisitos básicos pra quem quisessse se dar bem no pico.


Um reservatório enorme - dentro do qual cabe uma quadra poliesportiva -, chamado de "shallow end", um halfpipe estilo anos 70 (= sem flat) que aumentava os tamanhos de parede até desembocar no bowl de 3,50 m de altura e irreais 7 m de flat. Esse é o desenho do lugar que abrigava skatistas da ZN, ZS, ZO, Baixada e de outros estados. Um pico que já tinha visto uma parte da história ser escrita, por ter sido o berço do punk rock em terras cariocas em 1982.



É óbvio que a pista lotava em alguns momentos da tarde, e não era difícil de se ver 2 ou 3 skatistas andando no reservatório ao mesmo tempo. O half e o bowl ainda conseguiam com que um mínimo de ordem fosse seguida - embora não fosse difícil de rolarem doubles ou triples involuntários... Numa era de escassez de picos, Campo Grande era o nosso terreno sagrado.


Pois bem, os locais que moravam mais perto da pista tinham uma tática quase que infalível: davam seus primeiros rolés na pista pela manhã, almoçavam e davam um descanso pra depois voltarem pro pico antes do horário de pico do crowd, por volta das 16 horas. Num desses domingos, eram mais ou menos 3 da tarde quando um local muito veloz que andava na base regular se aqueceu no reservatório e começou a fazer uma linha que ele sempre executava. O cara dava impulso de fakie e rodava todo o reservatório fazendo carvings muito rápidos, e encerrava essa primeira parte da linha com um fakie boardslide muito extenso na curvona do pico, o que não era imitado por ninguém.
Foi quando alguém deu a ideia:


- Já que você tá andando de fakie, por que não muda logo pra goofy? É só você dar o mesmo impulso que você dá, e você vai rodar como se andasse ao contrário.


O prêmio seria um refrigerante e um sacolé de suco de frutas, que seriam comprados numa casa localizada na praça que era o local mais próximo pra comprar qualquer bebida.


Assim foi feito. O cara começou a mandar a mesma linha só que botando o nose onde estava o tail. De regular, o cara passou a andar de goofy - e acertou a linha de primeira. Só por diversão. Só pra ganhar o refri e o picolé, que foram pagos com todo o prazer do mundo, e rir da nossa cara.


O skatista chama-se Márcio Teixeira Oliveira, conhecido na pista como Márcio "Mumu".


Se não me falha a memória, como testemunhas estavam Roberto "Ho-Ho", Gino Borges, Mário Márcio e eu mesmo, além dos rollers e bikers que infestavam o pico antes da hora do crowd pesado. Aquilo foi a novidade do dia pra gente, que foi compartilhada com a galera da ZS que começou a chegar em peso pouco tempo depois. Virou até uma brincadeira entre os que tinham mais base - mas ninguém chegou a fazer a linha com a mesma precisão e velocidade que o "Mumu" havia conseguido.


Corta pra uns 5 ou 6 anos depois. Leio na Thrasher que uns moleques estavam fazendo uma ou outra manobra "ao contrário" em minirrampas, já com o nome de "switch stance". No mesmo ano, Daniel Bourqui publicou umas fotos de um garoto que morava em SP que também mandava umas manobras não só na mini, mas também no half da Ultra. O nome do garoto?! Bob Burnquist, então com 13 ou 14 anos.


No início dos anos 90, fazer manobras de switch era o que havia de mais moderno no mundo do skate - menos praqueles locais da pista de Campo Grande, que viram o movimento nascer num domingo qualquer em 1984.


Esse texto pretende simplesmente render uma homenagem (muito tardia, eu sei bem) a um dos mais velozes skatistas que aquela pista já viu andar em seus domínios. Não que o "Mumu" faça a menor questão disso, muito pelo contrário; ele simplesmente não liga, e vai continuar andando de skate o mais rápido possível sempre que lhe for possível. Como muitos caras inovadores, "Mumu" deu início a uma revolução sem sequer se dar conta, sem se importar e sem nenhum outro objetivo que não fosse simplesmente se divertir.


Nos tempos atuais, em que qualquer um que anda de skate há um ano e monta um blog já se acha no direito de cobrar alguma coisa do cenário, é bem apropriado colocar-se as coisas nos seus devidos lugares.


Por isso mesmo, Márcio "Mumu" tem todo o meu respeito e a minha admiração.


Conheça mais sobre esse skatista em seu blog pessoal clicando aqui. Lá você não vai ver relatos de façanhas, encheção de linguiça e nem um pingo de egolatria. É simplesmente um blog pessoal - ou, como ele mesmo diz, "38 anos de sessions - minha vida sobre rodas".



f/s de Márcio Mumu - pista Campo Grande 1992  (crédito: Acervo pessoal de Márcio "Mumu")


2011 raspando os eixos no banks da Praça do Ó RJ.  (crédito: Acervo pessoal de Márcio "Mumu")


Ah, sim: ele também é o "Sensei Márcio", mestre de aikidô. Vai encarar?!  (crédito: Acervo pessoal de Márcio "Mumu")


O famoso e jamais imitado boardslide no final da linha de fakie..  (crédito: Acervo pessoal de Márcio )


38 anos de sessions - uma vida sobre rodas- esse é Márcio Mumu  (crédito: Acervo pessoal de Márcio "Mumu")




comentários

  Diego Gonçalves Peixoto:

Nossa ! história privilegiada ! sorte os skatistas que estiveram no dia ! eu moro perto da Rampa , acertei minhas primeiras manobras la, inclusive as de Switch ! fiquei mais feliz ainda depois que li essa história ... e também não pensava que a Rampa era tão antiga ! abraços

06.10.2011 22:44   | Rio de Janeiro, RJ

  LUIZ CLAUDIO - Sk8 Roots:

Muito boa matéria!
Espero um dia me esbarrar com o Mumu e poder dar-lhe os devidos parabéns!

17.10.2011 12:35   | Nilópolis, RJ

  wolmin:

a nova geraçnao tinha que ler a sua coluna ao invês de ficar catando noticia na gringa!

30.12.2011 01:05   | Rio de Janeiro, RJ

  vinicius perrone "nareition":

Isso que é história. Isso devia ser incluído nos livros didáticos nas escolas do Rio. Senti um pouco dessa emoção na pele ao ler essa coluna, apesar de começar a andar lá em 2000. Um abrç Guto.

21.01.2012 13:24   | Rio de Janeiro, RJ

  vinicius lobos:

Karaka eu andum nessa pista e adorei a historia recomendo..

20.02.2012 20:08   | Campo Grande, MS

  lucas dantas :

nossa pessoal essa pista é um maximo eu jah
dei um rolé de skate láh !!!! é muito show mas tipo eu naum dropo mais pq jah tem muito tempo q eu naum ando de skate e só tenhu 18 anos !!!!

04.03.2012 13:28   | Rio de Janeiro, RJ

 

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