Revista Tarja Preta reúne fortes doses de sexo, drogas e humor ácido
Por Rennê Nunes
A intenção deles é subverter. Utilizando a arte dos quadrinhos, essa galera se arrisca a contar histórias de um universo real de situações ocorridas nos bastidores da cena underground. Sexo, drogas e um humor ácido aliado à crítica social. Essa é a fórmula da Tarja Preta, poderoso remédio contra censura e a hipocrisia da indústria cultural corroborada pela mídia coorporativa.
Bebendo de fontes consagradas da história dos quadrinhos alternativos como o desenhista Robert Crumb - um dos precursores do quadrinho alternativo nos Estados Unidos - a Tarja Preta é um exemplo de mídia independente que, surpreendentemente, deu certo. Numa sociedade moralista às avessas, é de se surpreender que uma revista assumidamente a favor da descriminalização das drogas e que tem como personagem principal um herói maconheiro, ganhe notoriedade.
Tivessem vivendo há algumas décadas atrás, nos tempos de Carlos Zéfiro – considerado mestre dos quadrinhos Pornô brasileiros - os editores da Tarja estariam operando na clandestinidade e certamente não dariam uma entrevista como essa, tão escrachada. Afinal, uma “Tarja Preta incomoda muita gente”.
A seguir, o jornalista e fotógrafo Matias Maxx, um dos editores da Tarja Preta, fala um pouco mais sobre a história dessa publicação repleta de “quadrinhos sujos e enfumaçados”, que vem ajudando a escrever a história dos quadrinhos alternativos brasileiros.
Como e quando surgiu a Tarja Preta?
Matias Maxx - Cara, eu bolei esse nome em 1996, na época eu fazia o Cucaracha Zine e estava idealizando uma revista que tivesse sexo e drogas, mas também um discurso forte, daí bolei esse nome, mas nunca levei o projeto adiante. Os anos passaram e eu, que sempre fui fã de histórias em quadrinhos, comecei a fazer vários amigos no meio, dai um dia bebendo com o Juca, lembramos que, quando éramos moleques, tinha uma porrada de revista maneira, Animal, Chiclete com Banana, MAD... E hoje em dia não tinha porra nenhuma, daí decidimos fazer alguma coisa, e daí eu saquei esse nome guardado há muito tempo e começamos a idealizar o projeto, quem ia estar nele e tal...
Qual é o ideal do projeto?
Matias Maxx - Tarja Preta é Remédio Forte. A idéia é reunir um monte de colaboradores fodas, de distintos lugares e gerações, mas que tenham algo em comum que é a referência de contracultura mesmo. A gente sempre faz jornalismo em quadrinhos, transforma nossas impressões sobre eventos e viagens em noticias. Também sempre tem o jornalismo ativista, a gente é declaradamente anti-proibicionista, daí tem os quadrinhos que ninguém mais ousa publicar, e tem sempre uma gatinha no pôster central. É contracultura, anti-proibicionismo e um tanto de pornografia, sempre com humor ácido.
Alguém financia? É independente? Tem editora? Como funciona essa parte?
Matias Maxx - Ela é bancada com anúncios e vendas de edições anteriores, camisetas e um pouco de nossas almas de vez em quando. A gente editou tudo desde o inicio, hoje abri uma editora, com CNPJ e essas coisas, mas não mudou muita coisa. A gente mesmo que distribui, leva na gráfica e corre atrás de anuncio. A primeira edição a gente financiou produzindo uma coleção de roupas customizadas pelos desenhistas. A gente também sempre fez camisetas, mas me orgulho em dizer que a gente paga quase toda a revista com grana de anunciantes que curtem a revista, apóiam a idéia, e satisfeitos com o retorno voltam a anunciar.
Como vocês definem a estética dos quadrinhos publicados na Tarja Preta?
Matias Maxx - Quadrinhos Sujos e enfumaçados.
Vocês consideram o quadrinho de vocês underground?
Matias Maxx - Desde Crumb que o termo é esse né?
Quais as fontes de inspiração de vocês?
Matias Maxx - Um boldinho (baseado) de manhã, um antes do almoço, outro depois, mais um no meio da tarde... Ah! Já falei, Chiclete com Banana, MAD, Animal (a mais próxima da gente, já que herdamos vários colaboradores deles) e os gringos Robert Crumb, Freak Brothers, Art Spielgman, Joe Sacco...
Quem faz a Tarja? Fale um pouco de cada membro da Tarja e sua ligação
com quadrinhos ou não.
Matias Maxx - Eu não desenho, sou jornalista e fotografo e apaixonado por quadrinhos desde sempre. Edito a revista, fecho a maioria dos anúncios, a distribuição e os eventos, também faço alguns roteiros que geralmente o Juca ilustra. O Juca é o co-editor, ele me ajuda na maioria dos processos, mas principalmente a escolher as histórias e pressionar os colaboradores. Ele também desenha e ocupa boa parte da revista, a gente sempre desenvolve juntos umas paradas de jornalismo em quadrinhos. Daí tem o Daniel Paiva, que colabora na Tarja desde o número #2, ele foi um achado, é uma das nossas revelações, a partir da #4 ele começou a ajudar a gente na edição também, basicamente apertando os baseados enquanto a gente trabalha. Hoje temos uma legião de colaboradores fixos, o Arnaldo Branco (que criou o Capitão Presença e os remédios do mal), o Allan Sieber, o MZK, o Schiavon, o Zé Colméia, a Dúnia, o Leonardo... mó cabeçada!
Por tratarem de assuntos "proibidos", já sofreram algum tipo de censura
ou ameaças? Quais?
Matias Maxx - Ah! Só coisa boba, moleque sendo suspenso na escola, neguinho mala reclamando num ponto de venda ou outro... Nada sério...
Fale um pouco do Capitão Presença e seu destaque na Tarja.
Matias Maxx - O Capitão Presença é o herói que sempre salva... Ele foi criado pelo Arnaldo (Branco) aqui em casa, nas reuniões pré-Tarja #1... Ele fez umas tiras e tudo mundo adorou e começou a fazer histórias sobre ele... O personagem ganhou vida própria e fez um puta sucesso, saiu um livro pela Conrad e saíram matérias a respeito em jornais de todo Brasil, inclusive em destaque na foto de uma apreensão de drogas da Policia Federal. O “Preza” é nosso filho, nós o lançamos e temos muito orgulho dele!!!
Como está a Tarja hoje e quais os projetos futuros?
Matias Maxx - Estamos trabalhando na distribuição da #5... O que dá um puta trabalho... A gente sempre gosta de armar eventos de lançamento em cidades diferentes e fazer a Tarja ir chegando mais longe. Pretendemos lançar a #6 ainda neste segundo semestre e pretendo também lançar outros títulos pela nossa editora, a Tarja Preta Terrorismo Editorial, livros e revistas, mas isso é ooooutra história.
